O que fizeram às oliveiras?

Este texto que segue é resultado da proposta de redação do curso de Redação Criativa que faço no Curso Persona.  Os vídeos se referem à entrevista dada por José Saramago a Edinei Silvestre  e são a origem da proposta. Deveria fazer um texto de memórias, sobre Saramago, como seu eu fosse o próprio. Foi escrito no mesmo dia de morte do autor português e é minha pequenina homenagem a esse grande pensador. Meu agradecimento ao professor Pablo Pereira, incentivador à minha criatividade.

http://www.youtube.com/watch?v=4XDmsXWlDqE&NR=1

http://www.youtube.com/watch?v=KukaoWu00Uw&feature=related

O que fizeram às oliveiras?

É muito triste voltar aqui em casa, pois é onde considero minha casa este lugar em que nasci e cresci, e não reconhecer que se trata do mesmo lugar. Não quis encontrar as mesmas paredes, o mesmo teto de minha antiga casa. No entanto, onde estão as oliveiras? Isto aqui é só campo e campo sem vida. Onde estão os riachos? Agora só vejo pedras. É mais que tristeza, sinto-me chocado. Assusta-me que desfizeram este lugar para que se mantivessem preços altos do azeite. E tudo isso por dinheiro. Eu já deveria saber que essa é a ordem do sistema social, político e econômico, o qual dirige este mundo capitalista e totalitário, mas ainda me espanta ver o mundo mudar assim, tão rápido e tão abruptamente. Não é que muda o mundo o que me assombra, mas a forma como tem mudado. Escolhemos evoluir sem memória, sem história, e por isso se vão as oliveiras. O que importa mais é que uns poucos tenham muito dinheiro e que façam mais dinheiro. Vejo mais do que sempre os ricos governarem e os pobres viverem como podem.

Os críticos que conquistei dizem-me que sou pessimista, mas sou mesmo é realista num mundo em que os homens o direcionam para ser péssimo. Ainda escrevo para criticar governantes e os homens de poder. Escrevo porque tenho memória de minha infância que era melhor. Escrevo, não para ganhar este ou aquele prêmio, que são nada perto do tamanho do universo, escrevo para lembrar que vivi mais feliz, como poderiam ser as vidas de mais pessoas. É assim que comunico ao mundo, por palavras impressas, que podemos ter uma sociedade baseada em valores diferentes do capital. E quem me ensinou não foi um prêmio Nobel, mas sim meus avós analfabetos, os quais se mostraram os indivíduos mais sábios que já conheci. Não vivi em meio à riqueza, mas também não me vanglorio por ter sido criança pobre. Contudo, foi pelo pouco que tive durante tantos anos que aprendi a lutar por sociedades mais justas e a apontar governos interesseiros comandados por, digamos, caciques, que não defendem suas maiorias.
Pela crítica social é que baseio minha vida literária e pelo mesmo motivo vivo há tantos anos em uma ilha distante daqui, onde nasci. Quero poder ver com distanciamento essas mudanças todas e ser capaz de alertar para as defeituosas. Mesmo assim, com todas as coisas que vejo e não gosto, especialmente no comportamento humano, penso como minha avó que dizia no fim de sua vida: “O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer”. Como ela, não tenho medo de morrer, mas pena de não estar mais neste mundo quando partir. Por isso, vivo aqui e cultivo minha existência junto de minha esposa, enquanto zelo por novos brotos de oliveiras, como aqueles de outrora, em nosso pomar.

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Sobre fabio de santana

Fábio de Santana é Instrutor do Método DeRose, formado pela Universidade de Yôga, supervisionado direto pelo educador DeRose, membro da equipe da sede do Método em Joinville SC. Quando não está exercendo sua arte profissional é surfista de fim de semana, ou escritor diletante.
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4 respostas para O que fizeram às oliveiras?

  1. Gustavo disse:

    Bem legal. Um dia tu vai escrever tão bem quanto Saramago. Não há exemplo melhor na literatura da língua portuguesa pra se seguir. E como estão as oliveiras, digo goiabeiras, das tuas origens? Pode ser cedo mas daria uma redação.
    Parabéns.
    Gustavo.

  2. felipegodinho disse:

    Saramago teria te aplaudido, Fabião. Excelente texto. Parabéns!!

  3. Brother, esse comentário do Felipe é meu. É que estou criando um website para o nosso amigo da Av. Rio Branco e não percebi que eu estava com o login dele ativo. Um abração!!

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